Ventura

Acho que fiz tudo do jeito melhor, meio torto, talvez, mas tenho tentado da maneira mais bonita que sei. (Caio F. Abreu)

Mas nós dançamos no silêncio
Choramos no carnaval
Não vemos graça nas gracinhas da TV
Morremos de rir no horário eleitoral

—Engenheiros do Hawaii 

(Fonte: lamour-et-blablabla, via lamour-et-blablabla)

Minha mãe a um tempo me disse algo que me fez para e pensar…Disse que Machado de Assis era um ateu e que ao longo de sua vida ele falou que não vale a pena ser um ateu, pois veja bem… Um ateu passa a vida toda tentando convencer os outros de que Deus não existe e um crente já não… O crente passa a vida toda crendo em um Deus e ninguém nunca irá xinga-lo ou o contestar… Quando ambos chegarem ao fim de suas vidas, veram se no que acreditaram a vida toda foi verdade ou mentira…Se for verdade que Deus existe, o crente vai pro céu e o ateu pro inferno.
Não é provado totalmente que Machado fora ateu, mas pode-se dizer que sim afinal a frase: “Deus, para a felicidade do homem, inventou a fé e o amor. O Diabo, invejoso, fez o homem confundir fé com religião e amor com casamento.” É de Machado

—Breve conversa com a minha mãe

Se era amor? Não era. Era outra coisa. Restou uma dor profunda, mas poética. Estou cega, ou quase isso: tenho uma visão embaraçada do que aconteceu. É algo que estimula minha autocomiseração. Uma inexistência que machucava, mas ninguém morreu. É um velório sem defunto. Eu era daquele homem, ele era meu, e não era amor, então era o que? Dizem que as pessoas se apaixonam pela sensação de estar amando, e não pelo amado. É uma possibilidade. Eu estava feliz, eu estava no compasso dos dias e dos fatos. Eu estava plena e estava convicta. Estava tranquila e estava sem planos. Estava bem sintonizada. E de um dia para o outro estava sozinha, estava antiga, escrava, pequena. Parece o final de um amor, mas não era amor. Era algo recém-nascido em mim, ainda não batizado. E quando acabou, foi como se todas as janelas tivessem se fechado às três da tarde num dia de sol. Foi como se a praia ficasse vazia. Foi como um programa de televisão que sai do ar e ninguém desliga o aparelho, fica ali o barulho a madrugada inteira, o chiado, a falta de imagem, uma luz incômoda no escuro. Foi como estar isolada num país asiático, onde ninguém fala sua língua, onde ninguém o enxerga. Nunca me senti tão desamparada no meu desconhecimento. Quem pode explicar o que me acontece dentro? Eu tenho que responde às minhas próprias perguntas. Eu tenho que ser serena para me aplacar minha própria demência. E tenho que ser discreta para me receber em confiança. E tenho que ser lógica para entender minha própria confusão. Ser ao mesmo tempo o veneno e o antídoto. Se não era amor, Lopes, era da mesma família. Pois sobrou o que sobra dos corações abandonados. A carência. A saudade. A mágoa. Um quase desespero, uma espécie de avião em queda que a gente sabe que vai se estabilizar, só não sabe se vai ser antes ou depois de se chocar com o solo. Eu bati a 200Km/h e estou voltando a pé pra casa, avariada. Eu sei, não precisa me dizer outra vez. Era uma diversão, uma paixonite, um jogo entre adultos. Talvez seja este o ponto. Talvez eu não seja adulta suficiente para brincar tão longe do meu pátio, do meu quarto, das minhas bonecas. Onde é que eu estava com a cabeça, de acreditar em contos de fadas, de achar que a gente manda no que sente e que bastaria apertar o botão e as luzes apagariam e eu retornaria minha vida satisfatória, sem sequelas, sem registro de ocorrência? Eu nunca amei aquele cara. Eu tenho certeza que não. Eu amei a mim mesma naquela verdade inventada. Não era amor, era uma sorte. Não era amor, era uma travessura. Não era amor, era sacanagem. Não era amor, eram dois travessos. Não era amor, eram dois celulares desligados. Não era amor, era de tarde. Não era amor, era inverno. Não era amor, era sem medo. Não era amor, era melhor.

—Martha Medeiros, Divã

(Fonte: entreversos, via entreversos)

Que eu não me perca. E que, se o contrário acontecer, o caminho de volta se estenda aos meus pés. Que não me falte jamais a força e coragem necessárias para levar a vida. Que a rotina não me canse, que o cotidiano não me embruteça. Que eu consiga me levantar sempre que as circunstâncias me levarem ao chão. Que não me falte garra para nadar, ainda que o barco tenha naufragado. Que as pessoas sejam gentis comigo, e que, se não forem, eu saiba lidar com isso. Que eu não desista quando parecer impossível. Que o distante não exista. Que as mágoas passadas deem espaço para um coração que abriga apenas as coisas bonitas. Que não me faltem sorrisos, abraços e palavras sinceras. Que a minha alma nunca se deixe pesar. Que alguém me goste pelo gosto do gostar. E que o medo não me vença. Que estas palavras sejam ouvidas. Que a perseverança seja constante. Que a esperança não se ausente. Que de mim eu não me esqueça. E que a fé nunca desapareça.

—Tassara Carneiro, Descuidada 

(Fonte: descuidada, via entreversos)

– Telefonei pra você ontem, não sei se você viu.
– Vi. Depois. Eu estava no cinema.
– Foi no cinema sem mim?
– Sim. Fui.
– Você está estranho. Quer dizer, você é sempre estranho. Só estou estranhando suas novas estranhezas.
– É. Eu sei. Eu só queria dar um tempo. Eu acho. Sei lá.
– O que há? Pensei que tivéssemos um acordo sobre as sextas-feiras. Você poderia ter me convidado. Eu iria junto contigo.
– Seria constrangedor.
– Por quê? O que você viu? Algo pornográfico?
– Um filme norte-americano boboca. Sobre amor. Tinha a Anne Hathaway. Aquela coisa, garoto-encontra-garota e após algumas resistências e desencontros, eles ficam juntos no final. Só havia casais e eu na sessão.
– Aeroportos envolvidos?
– Sim. Sempre.
– Nossa, constrangedor, realmente. Bom que você não me chamou. Eu não sairia viva. Você sabe, eu morro de tédio com essas histórias. Sou uma amor-ateísta. Praticante, militante e xiita. Uma mulher-bomba sem coração.
– É, eu sei. Por isso fui sozinho.
– Impressão minha ou você anda meio sentimental?
– Não sei se é a palavra. Ando querendo me apaixonar de novo. Estou fazendo alguns laboratórios.
– E eu estou atravancando seu caminho.
– Eu não disse isso.
– Mas deve estar pensando. Sempre deixei claro pra não contar comigo quando o assunto é… você sabe.
– Sei. Sabe, ontem, ao sair da sala no fim do filme, fiquei cuidando aqueles casais amarrados indo pra casa juntos ou saindo pra comer alguma coisa. Se você parar pra pensar, deixar o ceticismo de lado, é a coisa mais bonita quando duas pessoas resolvem viver uma para a outra. Justamente porque é o mais difícil de ser feito. Somos cínicos a respeito da condição deles, mas acho que quem está na zona de conforto somos nós.
– Preciso de um sal de frutas. Brincadeira. Eu espero, de coração, como sua amiga, que o amor aconteça com você. Um dia. Preferencialmente não até a próxima sexta-feira. Porque eu não tenho nada planejado ainda.
– E se o amor não for uma coisa que aconteça com a gente?
– Como assim?
– E se o amor for uma coisa que a gente deixa acontecer?
– Ah, entendi. Bem, tanto faz. Não quero deixá-lo acontecer e também não quero que ele aconteça comigo.
– Bem, então não há muito que eu possa fazer. Não tenho saída com você.
– Não. Não tem. Desculpa.
– Tudo bem.
– Falo sério. Eu sinto muito.
– Sente o quê?
– Culpa. Culpa por não sentir amor. Por não amar você. Me perdoa.
– Tudo bem, eu já disse. Não precisa chorar, também. Você não tem do que se sentir culpada.
– Você não disse se me perdoa ou não.
– Claro que sim. Quem me machuca com a verdade merece todo meu perdão.
– Obrigada. Me sinto mais aliviada.
– Eu estou bem, de verdade.
– Certo. Até sexta-feira então?
– Hum. Não.
– Não?
– Vou ao cinema outra vez.
– Com alguém?
– Não. Sozinho.
– Até quando?
– Até eu encontrar alguém pra ir comigo.
– Saquei. Até mais.

—Gabito Nunes

(Fonte: tortos-caminhos)

Tá na hora de mudar, meus sonhos já dormiram por tempo suficiente, agora é hora de acordar! Mais consciente do que quando eles lavaram nossas mentes, abre o olho, daqui pra frente vai ser diferente. Deus faz homens, igreja faz fiéis. Escola faz alunos, a vida e seus papéis. Cadeia faz tristeza. Rua, poluição. Cidade, desmatamento. A morte, aceitação. Dinheiro faz quase tudo, vontade faz quase nada. Silêncio, sabedoria. O som, festa na quebrada! A luta por um ideal abre a porta da caminhada. Humildade faz com que essa porta não seja fechada. O homem faz guerra, o homem quer paz. O homem se enterra, o homem nem sabe mais. Problema faz depressão, sistema faz opressão. E você, faça mais do que pegadas nesse chão!

—Projota

(Fonte: lamour-et-blablabla)

Se a dor tiver que vir, que venha rápido. Porque tenho uma vida pela frente, e preciso usá-la da melhor maneira possível. Se ele tem que fazer alguma escolha, que faça logo. Então eu o espero. Ou o esqueço. Esperar dói. Esquecer dói. Mas não saber que decisão tomar é o pior dos sofrimentos. Durante anos eu lutara contra meu coração, porque tinha medo da tristeza, do sofrimento, do abandono. Sempre soubera que o verdadeiro amor estava acima de tudo isto, e que era melhor morrer do que deixar de amar. Mas achava que apenas os outros tinham coragem. E agora, neste momento, descobria que eu também era capaz. Mesmo que significasse partida, solidão, tristeza, o amor valia cada centavo do seu preço.

—Paulo Coelho.  (via pausanoamor)

(Fonte: entreversos, via pausanoamor)

Solidão? O que acontece é que a gente procura os outros para se livrar de si mesma. A intolerável companhia que eu me faço. Preciso dos outros para não chegar àquele ponto altamente intolerável do encontro comigo.
Conselho: fique de vez em quando sozinho, senão você será submergido. Até o amor excessivo dos outros pode submergir uma pessoa.

Clarice Lispector (via que-seja-leve)

(Fonte: flores-de-dentro, via que-seja-leve)

Quero mudar minha vida. É tempo de fazer alguma coisa. Talvez eu tenha medo demais, e isso chama-se covardia. Fico me perdendo em páginas de diários, em pensamentos e temores, e o tempo vai passando. Covardia é uma palavra feia. Receio de enfrentar a vida cara a cara. Fuga, o tempo todo fuga.

Sei viver sem você, oficialmente falando. Mas eu não quero, não vou. Eu poderia te dizer aquelas doces mentiras sinceras - “você-é-minha-vida”, “não-sei-o-que-seria-da-minha-vida-sem-você” ou todo esse tipo de porcaria que a gente diz no calor da hora. As pessoas são assim, dizem que não sabem viver sem você. Depois aprendem e esquecem de comemorar contigo. E deixam vazio o lugar que sempre será delas. Eu não, simplesmente estou aqui. De vez em quando sujo, entediado, agressivo, mal-humorado, triste, calado e chato. Mas aqui.

—(Gabito Nunes)

(Fonte: quedoceseja, via tortos-caminhos)